"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A VOLTA DOS DECADENTISTAS

No início do século XX, um grupo de pessoas que enxergavam com desconfiança o materialismo vigente, a euforia geral e a sensação de que a humanidade tinha chegado ao seu ápice. Eles eram conhecidos como decadentistas.
Era um grupo, cujo o olhar pro seu tempo, era permeado de ceticismo, isento de paixões e permeado de racionalidade, foram eles que alertaram pro perigo do que viria a acontecer, anteviram a Primeira Grande Guerra.
Estamos passando por algo parecido, há um grupo que, mesmo fazendo pilhéria, tem essa postura que pode ser denominada como novos decadentistas. Eles são realistas, são visionários por olharem de forma cética e isenta de paixões ou idolatrias.
Os novos decadentistas vos alertaram em 2013, 2014, 2015 e já estão anunciando o que está por vir, mas como Cassandras, novamente não serão ouvidos. Nesse embate gastronômico entre Coxinhas e Mortadelas, são eles que enxergarão o que de pior está por vir. São eles que estão no fundo da festa vendo quem vai passar vergonha por embriaguez, são eles que apontarão o dedo e dirão (em breve): "eu avisei!"

Foi tudo uma farsa, todos ganharam, menos o povo

Venho por meio desta anunciar que fui conscientemente feito de idiota, e insisti no erro de acompanhar pela TV um teatro. Um teatro maior que o que foi armado em 1992.


Não é a foto dos milhões nas ruas pedindo o impeachment que ficará na história, mas sim esta imagem.

O senado decidiu pelo que já estava posto. Dilma Rousseff foi impedida por 61 votos a 20, mas não há motivos para se comemorar. O Senado condenou mas não puniu o réu. Se ontem eu torcia, pelo bem da perda da narrativa de golpe pelo PT que Dilma não fosse condenada, hoje eu carrego a certeza de termos acompanhado um grande jogo de cena.

O senado chamado de golpista pelos defensores de Dilma nos últimos dias a poupou do verdadeiro castigo. Só o impeachment é muito pouco.

É um deboche contra os mais de 12 milhões de desempregados que a causadora da desgraça de tantas pessoas possa ocupar cargo público e ainda se aposentar as nossas custas. Dilma que foi a vida inteira uma burocrata de carreira vai poder exercer cargos públicos, se aposentar e ser sustentada por nós.

Misericórdia ou blindagem?

Amanhã Dilma poderá receber propostas e ser nomeada para ocupar um cargo com foro e se livrar da Lava Jato e de Moro. Todos se salvam, mesmo aqueles que discursaram pedindo que Dilma fosse também inabilitada. E a foto acima descreve de quem eu falo.

Ganha o PMDB com a presidência;
Ganha Dilma com a impunidade;
Ganha o PT com a narrativa de golpe;

Quem não ganha é o povo, que segue dividido com alguns crendo que são vitimas de um golpe e outros felizes com a cabeça da rainha louca servida numa bandeja.

Cai o projeto de poder de um partido, fica uma crise, um rombo enorme para ser tampado, ficam 12 milhões de desempregados e milhares e incontáveis empresas e negócios falidos (Um milhão e oitocentas mil segundo os dados oficiais em 2015).

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Minhas considerações sobre o processo do Impeachment de Dilma

Estou acompanhando cada fato que se desenrola no julgamento de Dilma no Senado, e faço minhas considerações definitivas de tudo que vi.

No processo de impeachment nem acusação e nem defesa estão mentindo pra ser bem sincero.

Hoje eu considero, baseado pela defesa, que Dilma agiu por uma interpretação da lei para emitir os decretos. Cardoso acertou em cheio na defesa, e eu em enxergar que essa seria a tônica na minha postagem anterior onde destaco:

Dilma seria condenada por um julgamento politico somente, pelo conjunto da obra, pela vontade da maioria da população e por políticos com medo de contrariar esse anseio. (A narrativa de golpe foi criada para constranger esses políticos, não colou agora, mas pode colar no futuro). Não porque de fato cometeu um crime. É isso que corre o risco de acontecer. .

A acusação diz a verdade ao denunciar que Dilma só foi eleita com uso de fraude contábil e estelionato eleitoral e que pelo "conjunto da obra" é responsável direta pela crise no Brasil a qual ela sabia que existiria, que maquiou dados contábeis e falseou estabilidade no ano eleitoral e que por isso merece ser deposta mesmo que não possa ser julgada por crimes que cometeu no mandato passado.

Portanto a votação fica por conta de interpretação que cada senador tem da lei. Muitos não vão votar com base na interpretação mas sim pelo "conjunto da obra" ou medo eleitoral uma vez que a maioria da população está contra Dilma.

Por isso acho que Dilma será condenada e a esquerda vai ganhar a narrativa do golpe.

Já estou até torcendo para ela não ser condenada em nome da narrativa. Mas em nome do pais o melhor seria que ela fosse condenada. Em todos os casos "Temer fica"... já que Dilma não conseguiria governar, essa é a única definição.

O que  não podemos é deixar todo o pais parado sem uma definição até 2019.

Preparem-se para a guerra de narrativas: O PT desistiu do presente e já se prepara para o futuro.

Sinceramente acho que Dilma vai ser condenada mas, acredito que a esquerda vai ganhar a narrativa de golpe.

Explico: A estrategia de defesa de Dilma agora gira muito mais em torno de uma interpretação da lei de responsabilidade fiscal. Gerando uma dubiedade no texto da lei.

Dilma seria condenada por um julgamento politico somente, pelo conjunto da obra, pela vontade da maioria da população e por políticos com medo de contrariar esse anseio. (A narrativa de golpe foi criada para constranger esses políticos, não colou agora, mas pode colar no futuro). Não porque de fato cometeu um crime. É isso que corre o risco de acontecer.

Nessa foto podemos ver um golpe em curso

Dilma admite estar fazendo uso de um jogo de narrativa ao dizer que se for condenada pelo senado é golpe, se for inocentada todo o processo foi democrático. O que é contraditório. Mas não para Dilma nem para o PT. Há um objetivo por trás disso.

O PT já desistiu do presente e se prepara para o futuro gravando um documentário durante o julgamento no senado. O objetivo é muito simples contar a história pelo seu ponto de vista no futuro para os jovens. Basicamente seus filhos serão cooptados por professores nas escolas que exibirão esse documentário em sala de aula.

Enquanto a esquerda se prepara para cooptar novas gerações nas escolas a direita não parece ter mudado muito.

Conservadores consideram que sejam eles responsáveis pela queda de Dilma. Quando na verdade só conseguiram com a ajuda de um rato como Cunha. Não articularam politicamente para tal. Se hoje a esquerda perdeu o monopólio das ruas, da indignação e das narrativas quem lhes forneceram argumentos e provas para refutar e atacar a esquerda foram odiados e descartaveis liberais. Ao contrário do que pensam os seguidores de um filosofo metido a aiatolá messiânico. (O aiatolá era contra o impeachment e promoveu perseguição aos movimentos de rua).

A guerra politica será essencial nos tempos que se seguem e conhecimento de publicidade e propaganda será primordial para aqueles que pretendem entender o que se passará nos próximos anos.

Estudem, sigam menos gurus, mitos ou semi-divindades que irão salva-los da "ameaça comunista" e se preparem para contar às próximas gerações o que de fato aconteceu. Não houve golpe, houve um projeto de poder partidário que naufragou e levou um pais inteiro junto.

E tudo que tenho a lhes dizer.

Não há golpe:

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Laicismo ou Perseguição Religiosa?

Provavelmente uma das ideias mais repetidas e defendidas, porém mal compreendidas, é a do estado laico. Frequentemente, a justificativa de que "O Estado é Laico" é usado com interesses muito mais escusos em jogo.

Recentemente, o jogador Neymar recebeu uma carta de reclamação do COI por usar uma faixa escrita "100% Jesus". Um vereador de São Paulo aproveitou a situação para criticar a ação do jogador nas redes sociais, partindo do princípio de que isso de alguma forma possui qualquer relação com o estado laico, e não com um regulamento privado feito pelo comitê organizador do evento.



É difícil pensar, entretanto, que princípio do laicismo demanda que manter a religião "na vida privada" significa suprimir qualquer manifestação de fé religiosa em lugares que não sejam a igreja e a própria casa. A intenção, aqui, parece ser a de simplesmente banir da vida pública qualquer manifestação de fé religiosa.

O que frequentemente parece escapar às discussões sobre o assunto é que laicismo não é sinônimo de ausência de fé religiosa e muito menos de supressão ou neutralidade. O Estado Laico é simplesmente uma forma de garantir a liberdade religiosa e, consequentemente, a liberdade de crença e de consciência.

Como diz Thomas Sowell, até mesmo o famoso "muro de separação entre igreja e estado" sequer existe na constituição americana. Tampouco se referia a qualquer princípio arcano, mas sim a uma situação com a qual os pais fundadores estavam bastante familiarizados. Acontece que a Inglaterra tinha uma igreja oficial, financiada com dinheiro dos impostos, e cujos membros e afiliados gozavam de certos privilégios legais. O que a primeira ementa fez foi simplesmente proibir o congresso americano de fazer o mesmo.

Da mesma forma, é inconsistente - se não desonesto - dizer que a constituição brasileira impõe a neutralidade religiosa a menos que a constituição assim o especifique. Mesmo para aqueles que mal a conhecem, é difícil crer que assim o seja quando até mesmo nossas cédulas de real levam a inscrição "Deus seja louvado".

Alguns poderão dizer que isso fere o princípio do estado laico, assim como o fato de haver imagens religiosas em tribunais ou no congresso. Mas, novamente, o laicismo não impõe a neutralidade ou a supressão de fé religiosa, apenas proíbe a imposição de uma crença e de privilégios para grupos religiosos. Não é incomum, por exemplo, que nos EUA o Congresso e até mesmo a Suprema Corte comecem suas atividades com uma oração. Pesquisas de opinião também mostram que parte considerável da população norte americana também já admitiu que não votaria em um presidente ateu. No entanto, nada disso muda o fato de que os EUA continuam sendo um dos países que mais respeitam a liberdade religiosa.

Outro ideia, talvez mais precisa, consiste em afirmar que em um estado laico a crença religiosa não deve interferir na política. Mesmo assim, é questionável se isso é realmente desejável, ou sequer possível. Boa parte da atmosfera moral da sociedade se baseia na religião predominante. Em muitos países islâmicos, por exemplo, as autoridades ainda fazem vista grossa a assassinatos por honra por considerá-los justificados.

É inegável de que, ao longo dos últimos séculos, diversos avanços civilizacionais importantíssimos foram alcançados, mas que, no entanto, não são universalmente aceitos. Dentre esses podemos citar a condenação da escravidão (algumas seitas islâmicas ainda permitem que se tenha escravas sexuais), da conquista militar, da pedofilia, dos assassinatos por honra, do racismo, da violência e da intolerância. Não é de todo improvável que tais avanços sejam defendidos baseados em preceitos religiosos. Nesses casos, a religião pode muito bem ser uma importante forma de defesa contra a tirania. Se, em um país altamente repressor e intolerante, alguém se dispuser a defender a liberdade e a tolerância baseando-se em princípios ou em uma moral religiosa, será que algum secularista ousaria se opor apenas porque sua defesa é de cunho religioso?

Leis devem ser defendidas ou atacadas por suas consequências, independente das motivações que levaram as pessoas a fazê-las. Se a lei é boa e a motivação é de cunho religioso, por que se opor? O que é difícil de entender é que tipo de princípio ou justificativa faz com que seja legítimo defender ou propor uma política ou uma legislação se motivada por razões ideológicas, mas ilegítimo se motivado por razões religiosas. Se tal princípio ou justificativa não existe, então é inconsistente dizer que há algo de ilegítimo em se propor uma política tendo-se por base alguma crença religiosa.

Um exemplo para tornar mais claro. Se as pessoas que votaram contra a legalização do aborto o fizeram por considerá-lo imoral, e se elas o consideram imoral primariamente por influência da religião, seria de fato factível esperar que as convicções religiosas não interfiram no resultado da votação? Ou: por que o fato de terem votado desta forma haveria de ser incompatível com um estado laico?

A polêmica causada durante a votação do Impeachment ilustra isso. Fez-se muita "polêmica" por causa de senadores que votaram em nome de Deus e da família, ainda que outros tenham dedicado seus votos a terroristas como Marighella e Che Guevara. Que princípio definidor do estado laico, exatamente, faz com que seja legítimo votar em nome de revolucionários assassinos e ideologias sanguinárias, mas ilegítimo votar em nome de Deus, da família ou de convicções religiosas?

terça-feira, 26 de julho de 2016

SUBMISSÃO – A DERROTA DOS CRUZADOS MODERNOS

Nos últimos meses, ocorreram uma sucessão de notícias muito parecidas e que vêm causando temor em alguns e incompreensão em analistas de toda ordem no mundo todo: ataques terroristas na Europa promovidos por muçulmanos. Nas últimas semanas, só para ficar nas mais atuais, foram pelo menos três sérios na Alemanha, sem contar os atentados na Bélgica e os acontecidos na França (Charlie Hebdo, Bataclan e Nice). Conservadores mundo afora apontam esses atos como consequência da onda de refugiados que força a entrada no continente, outros mais progressistas tentam vender a ideia de que são radicais, lobos solitários que distorcem o Islã e sem qualquer relação com os moderados. A verdade é que todos estão sem entender o que anda ocorrendo no berço do Ocidente. Todos, menos um, o escritor Michel Houellebecq. Autor do livro Submissão, obra que trata do tema de maneira sui generis, ele conseguiu traçar um painel – cada vez mais real – do que aguarda a França e de quebra o mundo ocidental.

Com um romance distópico, seguindo a escola de Orwell e Huxley, Houellebecq descreve um França em 2022 elegendo o primeiro presidente muçulmano da Europa. Após uma aliança entre o partido islâmico e os partidos socialista (Hollande) e de centro (Sarkosy), a aliança sai vitoriosa em cima do partido de Marine LePen. Carismático e moderado, num primeiro momento, o presidente não interfere na política econômica ou em outros assuntos do país, mas interfere diretamente na educação. Fazendo mudanças sutis, mas relevantes, aos poucos as universidades francesas – representada na obra pela Sorbonne – começam a ditar como será a vida dos franceses a partir desse ponto: mulheres com véus pelos corredores e depois pelas ruas, aumento de postos de trabalho favorecido pela saída das mulheres dessas frentes e ficando em casa e até mesmo a poligamia e pedofilia (o diretor da Universidade casa-se com uma jovem de 15 anos) passam a ser aceitos.

Sendo narrado em primeira pessoa, por François, professor de Literatura na instituição, ele é um homem cético, irônico e descrente com a vida, alguém que vive numa espécie de limbo, a parte da vida social. Através do olhar da personagem, o texto faz uma análise apurada da política francesa, colocando de maneira irônica os caminhos tomados pelos socialdemocratas e apontando o mal que o politicamente correto causa. O tom sarcástico do narrador-personagem serve para expor as escaramuças políticas em que a esquerda e centro-direita francesas colocam o povo e como isso facilita a entrada dos islâmicos na cena política francesa.
Um fato interessante da trama é justamente o tom analítico do protagonista e narrador. Como ele está fora do jogo político e é apenas um cidadão comum que tem sua vida alterada radicalmente por conta das mudanças, ele passa a tentar entender o que aconteceu fazendo com que a narrativa tome um tom memorialista. Voltando cinco anos no tempo (ao ano de 2017) ele remonta os acontecimentos que levaram a essa situação. Por ser alguém que é levado pela maré, François acaba se rendendo ao status quo, converte-se ao islamismo por conveniência e retoma suas atividades como professor acadêmico. Sua apatia e adaptação a essa realidade é uma forma de ilustrar o próprio povo francês com sua indiferença e aceitação com tudo que está acontecendo.

O livro é visionário. Ele traça um panorama que se fosse lançado há três ou quatros anos soaria fantasioso e até ridículo, porém, com o crescimento das comunidades muçulmanas formadas por nascidos em países europeus e que, por conta do volume populacional cada vez maior, começam a impor a sharia nesses locais. Com a chegada de refugiados, aumentando consideravelmente o número de islâmicos e agora com o fortalecimento político deles com a eleição de um muçulmano moderado para a prefeitura de Londres, fica evidente o quanto esse livro é revelador e até profético, mais uma vez tendo uma distopia que, servindo de alerta, acaba sendo usada como um manual. Até mesmo o fato de a esquerda mundial abraçar o mal que pode acabar com Ocidente é mostrado no texto. Vale lembra que, assim como no texto o partido socialista francês apoia o partido muçulmano, o prefeito de Londres foi eleito pelo Partido Trabalhista da Inglaterra, partido esse com o mesmo direcionamento do partido de Hollande ou dos de esquerda no Brasil.


A realidade que se descortina no horizonte e tenebrosa e precisa de uma solução iminente. O mundo como o conhecemos, os valores que por séculos foram defendidos e praticados e que levaram o mundo livre ser o que se tornou, um ambiente de liberdades individuais e progresso, pode deixar de existir e é com a leitura cada vez maior de obras como essa, que apontam de forma direta e sem melindres os problemas e seus causadores da destruição da Europa e por tabela de todo o Ocidente, que vai nos levar a enfrentar um mal assombroso e cruel. Fiquem com Submissão de Michel Houellebecq e até a próxima.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A DISTOPIA NOSSA DE CADA DIA



Um tipo de narrativa que passei a gostar nos últimos anos foram as distopias. E o que me faz buscá-los é o seu assustador retrato da realidade servindo de alerta (muitas vezes ignorado) sobre os perigos que nos cercam em sociedade. Mas o que são distopias?

Diferentes do mundo perfeito e idílico apresentado na obra A Utopia (Thomas Moore) e referência a algo ideal, as distopias nos apresentam um mundo cruel, totalitário, onde o homem perde sua individualidade e liberdade. Muitas obras, durante o século XX, tornaram-se referenciais nessa seara e quando olho para o que acontece no país – e no mundo em muitos momentos – não consigo deixar de pensar que vivemos aqui no Brasil numa assustadora distopia que abarca o enredo das principais obras do gênero, como se essas fossem não um aviso e sim um manual.

Um primeiro exemplo é o livro 1984, de George Orwell. Ambientado numa Londres no ano de 1984 cujo governo está nas mãos do Grande Irmão, a população vive sob eterna vigilância, num ambiente de total falta de privacidade e liberdade. Toda e qualquer informação é controlada e a verdade é subjetiva, é usada ou criada por interesse dos que detêm o poder. Nesse ambiente, até mesmo as palavras têm seu sentido modificado através da Novilíngua, idioma criado a partir de contradições e supressões de sentidos e expressões para que as pessoas pensem de maneira confusa. Tudo é controlado por essa entidade, O Grande Irmão, e ninguém se dá conta de que é controlado.

Aí, meu provável leitor vai pensar: “qual a relação desse livro com o Brasil? ”. Explico. Ao pensarmos em leis como o Marco Civil da Internet, pensar em como a informação e o sentido das palavras e ideias são deturpados para defender uma ideologia, quando percebemos que estamos nas mãos de uma entidade que deveria nos proteger e legisla contra a população (STF) nos mantendo sob eterno medo e incompreensão, fica claro como vivemos num mundo como 1984. Quando mentiras viram verdades e pessoas subjugadas defendem com afinco os responsáveis por sua miséria – como o pai preso denunciado pelos filhos e mesmo após ser agredido pelos representantes do Estado ainda defende o Grande Irmão – e quando aqueles que tentam mudar esse quadro sombrio são perseguidos, calados e até mortos, fica claro a realidade distópica em que vivemos.

E quanto ao esvaziamento cultural? Pensem na peça dos macaquinhos (aquela em que atores exploram os orifícios alheios em cena), nas músicas cada vez mais pobres, nos programas cada vez mais imbecilizados e afinados com uma agenda política disposta a idiotizar a população no intuito de manter e aprofundar a realidade acima? A cada dia, os que pensam por conta própria, os que buscam conhecimento, são cada vez mais hostilizados, perseguidos. Essa ignorância coletiva planejada, esse entusiasmo em vender livros para colorir, infantilizando adultos, essa produção intelectual que trata adultos como crianças de 12 anos e que faz com que qualquer pensador sério seja um proscrito nos centros acadêmicos está diretamente ligada a outra obra distópica onde o conhecimento é proibido e a ignorância é vista como a verdade maior: Fahrenheit 451.

Na obra de Ray Bradbury, o conhecimento é perseguido. O papel dos bombeiros nessa sociedade é queimar livros. As pessoas vivem em suas casas com telas que levam entretenimento vazio para as pessoas enquanto aqueles que não se conformam com essa realidade, que escondem livros em suas casas, são perseguidos por um Estado totalitário que preza a ignorância do seu povo. Nesse caso, a escravidão do povo – diferente de 1984 – é pelo saber, ou ausência dele. Por desconhecer, o povo é dominado e a máquina estatal usa sua infraestrutura para que continue assim. E essa ignorância, esse entretenimento vazio e deturpação do sentido das coisas, essa distorção de valores morais, leva-nos a outro traço em nossa sociedade que me faz crer que vivemos numa distopia.

Muito foi falado das ocupações escolares em algumas cidades brasileiras. Da mesma forma, fala-se muito de como os mais jovens se tornaram cada vez mais desinteressados e irresponsáveis. Como professor, sou um ferrenho crítico do ECA e de outras leis que protegem jovens indisciplinados ou criminosos. Essas leis criaram uma geração que não respeita a autoridade, não valoriza preceitos morais, ignoram a importância de se adquirir conhecimento. São crianças mimadas criadas por adultos incapazes de puni-los por força de lei.

Essa geração totalmente violenta e desrespeitosa não diferente em nada dos protagonistas de Laranja Mecânica, outra distopia que serve de parâmetro para olharmos o Brasil. No livro, adolescentes enveredam pela delinquência, pais são incapazes de conter seus filhos e as ruas passam a ser dominadas por hordas de garotos arruaceiros que não respeitam nada nem ninguém. Num mundo onde o Estado cria leis que inibem a autonomia dos pais, o protagonista Alex torna-se um marginal violento sendo preso e torturado diante da impotência de seus pais de o educarem. A cada turba de crianças que invadem os ônibus na saída das escolas pichando, gritando, atrapalhando a ordem e depredando patrimônio alheio por puro prazer, fica difícil não lembrar de Alex.

Ainda é possível pensar em mais uma obra ou duas obras. O hedonismo desmedido, por exemplo, a banalização do sexo através de músicas e programas de TV, a busca pelo eterno prazer que leva a uma ditadura da felicidade onde todos devem ser felizes a qualquer preço está no mesmo grau de prisão prazerosa descrita em admirável Mundo Novo. Enquanto nas obras acima mostrarem um mundo opressor, privando o homem de sua liberdade pela opressão estatal ou ignorância mantida pelos que estão no poder, no livro de Huxley, a privação da liberdade é mais perigosa por se travestir de liberdade. Esse mundo libidinoso de eterno prazer embota os sentidos fazendo com que todos pensem que são livres, mas se tornando escravo de seus prazeres e esse estado de coisas mantido de forma deliberada pelo governo.


Até mesmo as obras de ayn Rand (sobre as obras leia nos links: http://meindicaumlivro.blogspot.com.br/2016/07/quem-vai-parar-o-motor-do-mundo-quem-e.html e http://meindicaumlivro.blogspot.com.br/2016/07/a-nascente-e-o-legado-do-homem-ideal.html) possuem um ar de profecia ao olharmos as decisões tomadas pelos 13 anos de governo petista levando a nossa economia ao colapso que nos encontramos hoje. Tanto uma obra quanto a outra mostram como um grupo de formadores de opinião pode ser manipulado para defender uma ideia destrutiva sem que tenha a noção de que estão sendo manipulados (A Nascente) ou como decisões desastrosas podem levar a uma queda profunda de produtividade e dilapidação da riqueza, um estrangulamento daqueles que empreendem levando o país a uma quebradeira generalizada.



Muitos são os exemplos de obras que podem nos fazer entender o nosso mundo, mas as distopias de forma geral servem para abrirmos os olhos para os perigos de certas posturas daqueles que governam e devem ser sempre leituras obrigatórias para aqueles que lutam pelas suas liberdades e por um mundo onde esse tipo de narrativa seja apenas isso: uma narrativa. Até a próxima.

sábado, 16 de julho de 2016

A Turquia moderna que conhecemos na TV e em panfletos de viagem irá acabar



Vou me antecipar aos fatos na Turquia e vocês podem vir me cobrar depois. Mas antes vamos explicar melhor como funciona a politica turca contando...

O que nenhum analista politico da Globo News irá te contar

O exercito Turco não segue as ordens do presidente do pais. Ele segue a visão do fundador doa Turquia: Mustafa Kemal Atatürk.

 Kernal era um militar entusiasta do iluminismo e defensor de um estado democrático Secular (com separação do estado da igreja, ou melhor Mesquita). Depois de lutar pela independência da Turquia e reerguer o pais dos escombros do império otomano derrotado na primeira guerra. (Sim o Império Otomano era parte da tríplice Aliança junto a Alemanha e o império Austro-Húngaro) Kernal estabeleceu o seu "Kernalismo".

A ideologia 'kemalista', que encontrou nas Reformas de Kernal Atatürk, procurava criar um Estado-nação moderno, democrático e secular, guiado pelos progressos educacional e científico, fundamentados sobre os princípios do positivismo, racionalismo e do Iluminismo.

O exercito turco tem a função de defender a soberania do pais SEGUNDO A VISÃO DE KERNAL, não sendo subserviente e nenhum outro governante. Por isso é muito comum que de tempos em tempos ocorram intervenções militares no pais sempre que um governante saia da visão pretendida pelo grande patriarca turco se aproximando da religião ou pretendendo reviver a glória Otomana (e esse movimento nunca morreu no pais, além de um crescente extremismo islâmico na maior parte da Turquia, abafando inclusive o cristianismo ortodoxo que sempre foi forte por lá).

É importante ressaltar que a tentativa militar de depor o presidente Recep Tayyip Erdoğan NÃO CONTOU COM A PARTICIPAÇÃO DE NENHUM MILITAR DE PRIMEIRO ESCALÃO. Procurem na história mundial de todos os golpes militares aplicados contra governantes e vejam quantas vezes isso aconteceu sem a participação direta de algum General ou qualquer outro militar de patente superior.

Agora vamos ao outro lado da história.

Recep Erdogan está no poder há 10 anos. Primeiro como primeiro-ministro e depois como presidente já há dois mandatos seguidos. Erdogan reúne todos os atributos que podem compara-lo a líderes populistas como Hugo Chaves. Com medidas populistas, partidarismo, Otomanismo, censura a internet e controle de mídia. A principal fonte de informação do pais é um canal estatal.

A tradição política turca determina que o Presidente da República tenha cerca neutralidade e independência dos partidos políticos, sendo este um dos juramentos no ato de posse presidencial. Quebrar um dos termos de um posse é uma violação da Constituição da Turquia. Contudo, pouco tempo depois de assumir a presidência do país, Erdoğan foi acusado pela oposição de quebrar seus termos de posse ao apoiar abertamente o partidarismo através de seu partido, AKP.

De origem islâmica, Erdogan frequentemente mistura sua visão religiosa a questões politicas, como por exemplo na declaração onde refuta o genocídio armênio ao dizer: "não é possível a um islâmico cometer genocídio". Erdogan causou um aumento na relação já tensa com os armênios ao em 2011, no pico da crise entre os dois países, Erdoğan determinou o desmantelamento da "Estátua da Humanidade", um monumento dedicado às relações de amizade conquistadas após décadas de disputa política pelos eventos de 1915. O premier justificou afirmando que "o monumento situava-se ofensivamente próximo a uma tumba islâmica e que prejudicava sua visão". Até hoje as fronteiras com a Armênia estão fechadas e ninguem entra ou sai da Turquia pela Armênia.

Se a turquia até hoje não conseguiu ingressar na UE, deve-se a atuação de Erdogan numa atuação desleixada de defesa dos direitos humanos e de frouxidão com o terrorismo.Não são poucas as acusações a Erdogan de fazer jogo duplo com o ISIS permitindo passagem de comboios transportando petróleo que abastece as forças do Estado Islâmico.

A realidade da Turquia difere e muito das imagens comuns de modernidade que temos do pais onde mulheres possuem relativa liberdade em comparação a outros países islâmicos. Isso só ocorre nas regiões mais ricas do pais ainda dominadas politicamente por militares. No restante da Turquia a realidade é outra.

Isto posto, afirmo que caso Recep Erdogan consiga rechaçar a revolução armada que ocorre no pais (onde no momento a maioria dos mortos no confronto são militares) a tendência é de um aumento de poder inédito do presidente ao tirar do jogo o único dispositivo real que o pais tem para evitar tiranias: As forças militares.

A radicalização religiosa deverá aumentar mais e ponto do estado se misturar coma religião mais e mais e a turquia que conhecemos de panfletos da CVC e de novelas da Globo não passará de mera lembrança.

Erdogan tem grandes aspirações em ser como Vladmir Putin que parece próximo do eurasianismo, embora não passe de um Hugo Chaves sem apoio militar, e poderemos assistir na Turquia ao ressurgimento do Império Otomano sob as vistas grossas de uma Europa pálida com seus próprios problemas com o terror e a questão dos imigrantes (muitos deles com a entrada no continente europeu facilitada pela Turquia), e uma America frouxa dependente de seu acordo de cooperação com os turcos, que recebem a frota marinha americana. A Turquia tem posição estratégica e essencial no conflito com o Estado Islâmico ligando a Europa ao Oriente Médio e Erdogan sabe disso.

Acompanhar os rumos da Turquia é uma obrigação de quem tem interesse pela história pois é lá que todo o jogo pode mudar.

Millor Fernandes:

Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.